quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Para a Maria

Não acredito que já passaram exactamente hoje 12 anos.Depois de uma noite de paixão, na qual uma criança foi gerada, foi tudo tão facíl na altura, para passados poucos meses se tornar num pesadelo.
Mas quero recordar os momentos felizes em que crescias na minha barriga. Eu levava-te a ouvir música clássica, mas tu talvez quisesses sossego e mexias-te de tal forma dolorosa que eu tinha que sair da sala e ir para casa descansar.
No dia 12 de Agosto de uma forma muito violenta, creio que nascer deveria ser tranquilo e não violento e penoso como o teu foi,mas nasceste, perfeitinha, pequenina e linda. Os sentimentos que vivi nesse momento foram uma mistura de fragilidade e medo, pelo facto de deixar de estar sozinha, agora tinha-te junto a mim e já nada se iria alterar. Será que iria conseguir cuidar de ti? de te dar o melhor que a vida tem para nos oferecer? - muitas interrogações , que com o tempo se foram dissipando.
Hoje quando olho para ti, sinto que fiz um bom trabalho, és educada ,bonita e tens um coração enorme.
Certo dia fizeste-me a seguinte pergunta: mãe , a avó disse-me que sempre afirmaste que não querias ser mãe, é verdade? Não achei correcto mentir ou ocultar e decidi ser o mais sincera possivel.
Fui mãe pela primeira vez aos 30 anos, e a maternidade sempre esteve em terceiro, quarto, ou quinto plano ,isto porque , e passei a explicar-te que a minha maior ambição na vida, nada tem de material, era e continua a ser , andar pelo o mundo a ajudar os mais necessitados em organizações humanitárias, e como é obvio isto não seria facíl de concretizar, sendo mãe , estaria muito limitada e condicionada.
Mas nada é como planeamos ou quase nada, porque surgem contratempos, que muitas vezes somos nós que os procuramos, não deliberadamente.
Enfim...não me arrependo de ter mudado o ideal de vida estruturado na minha cabeça e ter dedicado a minha existência ao ser que acabara de nascer .
É gratificante, exaustivo, e todos os adjectivos que se possam acrescentar, é uma vida que depende de nós e da qual somos como que prisioneiros, pode parecer uma expressão muito forte, mas tudo muda quando vivemos a experiência da maternidade. Expliquei-te tudo isto de uma forma simples para que entendesses, disse-te e torno a dize-lo que foste das melhores coisas da minha vida , ficaste mais aliviada com a explicação.
Passados 12 anos, dizes que queres ter filhos e ser enfermeira, és diferente de mim , que sempre disse que não os queria ter.
Para finalizar digo-te que mais um ano passou, eu vou envelhecendo serenamente e tu  crescendo linda ...e com ideias muito tuas.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Pequenos textos de Margueritte Yourcenar....

Há entre nós melhor do que um amor : uma cumplicidade.



Solidão ...Não creio como eles Crêem, não vivo como eles vivem, não amo como eles amam...Morrerei como eles morrem.


O amor é um castigo. Somos castigados por não termos podido ficar sós.


É preciso amar um ser para correr o risco de o suportar. É preciso amar-te muito para continuar a ser capaz de te suportar.

Os teus cabelos,as tuas mãos, o teu sorriso recordam de longe alguém que amo. Quem? Tu mesmo.


O álcool desembriaga. Depois de alguns golos de conhaque ,já não penso mais em ti.



Um coração, talvez seja sujo .É do tipo da mesa de anatomia e do açougue do carniceiro.Eu prefiro o teu corpo.


Para onde fugir? Tu enches o mundo .Não posso fugir de ti senão em ti.


Não se dar mais é dar-se ainda.É dar o seu sacrifício.


Amar de olhos fechados é amar como um cego. Amar de olhos abertos, é talvez amar como um louco: é aceitar perdidamente.Amo-te como uma louca.


Quando perco tudo,resta-me Deus. Se afasto Deus, encontro-te. Não se pode ter ao mesmo tempo a noite imensa e o sol.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Palavras por dizer...espaço sem fim...


Dorme meu amor...
Um sono profundo que te transporte para terras distantes,
Cheiros intensos...olhares vazios e cores eternamente transparentes,
Recorda as palavras fugazes que ficaram retidas na memória ,
Recorda um pouco de tudo...e um todo do nada ...

Para ti minha querida avó...

Caiavas a casa de branco e tinhas tanto orgulho nela,

Dizias-me na tua voz meiga :" cuidado que a cal queima".


Eu lentamente afastava-me , tinha tanta vontade de te ajudar,
como forma de te dizer que gostava de ti.


Recordo as tuas golas altas para ocultar o bócio extremamente saliente, que nunca te ajudaram a remover.


Eras tão linda avó , mesmo quando mentias dizendo que a garrafa só continha água,
quando eu sabia que deixavas a tua alma afogar-se no vinho.


Falavas no aparelho do Dr. Bernardino, que mostrava todas as doenças.
Pensavas ser a salvação de muita gente. Um dia irias visitar aquele famoso aparelho, talvez te desse forças para viveres os dias de trabalho duro no campo ,na apanha das searas.


As tuas mãos ásperas apertavam as minhas, mas beijos não... porque o pó dos dias estava entranhado na tua pele.Eu amava-te de todas as formas ...

De mãos ásperas ...
De cara entranhada de pó...
Eu amava-te e sempre te amarei.


O aparelho do Dr. Bernardino de nada serviu. Maldita maquina...
Eu queria-te viva , queria-te a meu lado todos os dias da minha vida.
A pneumonia levou-te...os maus tratos ajudaram...
Fizeram de ti pó, pior que a cal que usavas para caiar a casa.
Eu recordar-te-ei sempre com amor....
Não esquecerei o amor que me deste , o leito onde nasci , a casa que caiavas com tanto brio.
No fim avó linda , todos nos reduzimos a pó.... cinzas de corpos gastos e desfeitos ...


Todo o sofrimento foi em vão...mas a memória estará sempre presente no meu coração...
Amei-te demais , mas amar assim será eterno.





quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Outrora...

Acho que outrora era tudo mais fácil,
Hoje um simples gesto torna-se demasiado ausente,
de quem o procura....

terça-feira, 3 de agosto de 2010